Por Paulo Nogueira
Em sociedades mais avançadas, publicar acusações gravíssimas com
base em palavras de um delator traz um risco sério para empresas de mídia.No
Brasil, não acontece nada.
Gosto de citar o caso exemplar de Paulo Francis, em que estava
envolvida, por coincidência, a Petrobras. Francis, numa campanha contra a
Petrossauro, como a chamava, acusou os diretores da empresa de corruptos.
Os diretores, se o processassem no Brasil, não conseguiriam nada.
Seriam acusados de conspirar contra a liberdade de imprensa e continuariam a
ser massacrados por Francis. Acontece que uma das calúnias de Francis foi
proferida nos Estados Unidos, no Manhattan Connection.
E então os executivos da Petrobras puderam processá-lo pela
justiça americana. Pediram a ele, nos Estados Unidos, uma só coisa: provas. Ele
não tinha nada. Na iminência de uma multa que o quebraria, ele entrou num
processo de turbulência mental do qual resultou um enfarto fatal.
Elio Gaspari disse que Joel Rennó, o então presidente da
Petrobras, matou Francis. Na verdade, Francis matou Francis.
São conhecidas as pressões que FHC e Serra, então no poder,
fizeram para que os homens da Petrobras desistissem do processo.
No Brasil, a sociedade está à mercê da mídia.
Como a justiça é inoperante, jornais e revistas têm o que um
premiê britânico chamou, num confronto com um barão da mídia, de “o atributo
das prostitutas” – o poder sem responsabilidade.
Ninguém sabe ainda em que circunstâncias o delator Paulo Roberto
Costa falou. O que se tem de concreto é que ele pode incriminar quem quiser,
pelo menos neste momento. Mesmo assim, a imprensa vai divulgando nomes de
citados sem a menor cerimônia, como se fosse uma banalidade.
O real objetivo, ninguém se ilude, é eleitoral. Ninguém está
interessado em moralizar nada. Se houvesse um intuito de limpeza ética, o caso
do metrô de São Paulo teria sido investigado em profundidade, bem como os 450
quilos de pasta de cocaína encontrados num helicóptero de amigos de Aécio.
A posição absurda desfrutada pela mídia no Brasil foi bem descrita
num tuíte do senador Roberto Requião, candidato ao governo do Paraná. “Até
agora o Henrique Alves manteve engavetado meu projeto de direito de resposta. E
agora. Deve ter entendido que sua aprovação é importante?”
Henrique Alves é o presidente da Câmara. Como Eduardo Campos, está
na lista de Costa.
No Brasil, sequer o direito de resposta vigora.
Ayres de Britto, ao anular a Lei de Imprensa, jogou fora coisas
vitais da defesa da sociedade, como o direito de resposta. Quando aparentemente
ele se movimentava para corrigir o erro, foi apanhado por uma denúncia da Folha
que envolvia um genro seu.
Parece ter entendido o recado, e não mexeu mais no assunto. Virou,
no Mensalão, amigo da imprensa, e escreveu o prefácio de um livro de Merval
sobre o assunto. Justiça e mídia deveriam se fiscalizar uma à outra, mas no
Brasil acabaram se abraçando e se autoprotegendo.
Um dia as fotos em que Merval e Ayres de Britto se abraçam,
sorridentes, no lançamento do livro merecerão o devido repúdio da sociedade.
“Como pudemos descer a este ponto?”, as pessoas se perguntarão.
É neste cenário que Eduardo Campos é morto pela segunda vez. Os
assassinos de sua reputação agiram sabendo que gozam de total impunidade.
Mais uma vez, minhas condolências à família e aos amigos de
Campos.
O autor da matéria, jornalista Paulo Nogueira, é fundador e
diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
São conhecidas as pressões que FHC e Serra, então no poder,
fizeram para que os homens da Petrobras desistissem do processo.
No Brasil, a sociedade está à mercê da mídia.
Como a justiça é inoperante, jornais e revistas têm o que um
premiê britânico chamou, num confronto com um barão da mídia, de “o atributo
das prostitutas” – o poder sem responsabilidade.
Ninguém sabe ainda em que circunstâncias o delator Paulo Roberto
Costa falou. O que se tem de concreto é que ele pode incriminar quem quiser,
pelo menos neste momento. Mesmo assim, a imprensa vai divulgando nomes de
citados sem a menor cerimônia, como se fosse uma banalidade.
No Brasil, sequer o direito de resposta vigora.
Ayres de Britto, ao anular a Lei de Imprensa, jogou fora coisas
vitais da defesa da sociedade, como o direito de resposta. Quando aparentemente
ele se movimentava para corrigir o erro, foi apanhado por uma denúncia da Folha
que envolvia um genro seu.
É neste cenário que Eduardo Campos é morto pela segunda vez. Os
assassinos de sua reputação agiram sabendo que gozam de total impunidade.

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