O jornal Estado de S.Paulo volta
a criticar o presidente em novo editorial. “O presidente da República, Jair
Bolsonaro, não parece satisfeito em criar problemas em série no país que
governa e passou a causar constrangimentos também em países vizinhos. Em
recente visita ao Chile, Bolsonaro minimizou a ditadura do general Augusto
Pinochet, ao dizer que ‘tem muita gente que gosta, outros que não gostam’,
deixando ao presidente chileno, Sebastián Piñera, a tarefa de lidar com a
péssima repercussão interna dessa e de outras declarações desastradas da
comitiva brasileira.
Dias antes, ao lado do presidente do Paraguai, Mario Abdo
Benítez, Bolsonaro elogiou o ‘nosso general Alfredo Stroessner’, ditador que
não foi nosso – foi deles, entre 1954 e 1989. Segundo o presidente brasileiro,
Stroessner foi um ‘homem de visão, um estadista'”.
O jornal paulista desenvolve seu raciocínio: “Todos sabem, há muito tempo, quais
são as opiniões do sr. Jair Bolsonaro a respeito das ditaduras militares
latino-americanas. Quando deputado federal, Bolsonaro sempre foi notório
defensor desses regimes, inclusive do recurso destes à tortura. Na condição de
presidente da República, no entanto, Bolsonaro deveria saber que suas palavras
adquirem enorme peso institucional, pois ele representa o Brasil no exterior,
razão pela qual deveria guardar para si suas opiniões sobre ditadores e
ditaduras em nações vizinhas, tema que naturalmente causa desconforto nesses
países – ainda mais quando trazido à tona por autoridades brasileiras.
*
Esses
episódios de incontinência verbal do sr. Jair Bolsonaro reiteram a impressão,
cada dia mais próxima da certeza, de que o ex-deputado federal ainda não
assumiu de fato a Presidência da República. Se tivesse assumido, Bolsonaro
falaria como chefe de Estado – que engloba o conjunto dos brasileiros e da administração
pública – e não como mero representante de seus eleitores. A cada dia que
passa, Bolsonaro, sob as vestes extravagantes da “nova política” – como os
chinelos e a camisa falsificada de time de futebol que o presidente usou numa
reunião ministerial –, continua a agir como deputado do baixo clero”.
Pontua sobre ditadura militar: “Assim, sem entender qual é natureza da
função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores no ano passado, o
sr. Bolsonaro drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca
relevância, mas com potencial de causar tumulto. O Estado noticiou,
por exemplo, que o presidente está estimulando os militares a comemorar o
aniversário do golpe militar de 31 de março de 1964. Tal iniciativa certamente trará
grande satisfação para o eleitorado mais radical de Bolsonaro, mas pode criar
desnecessário e inoportuno embaraço no momento em que o País precisa de união
para aprovar duras reformas”.
*
E finaliza: “Bolsonaro não demonstra nenhum interesse em construir uma
base parlamentar sólida o bastante para aprovar nem mesmo projetos simples, que
dirá reformas complexas, como a da Previdência. Parece acreditar que,
simbolizando a redenção do Brasil depois do flagelo lulopetista, todas as suas
vontades serão convertidas em lei pelo Congresso, sem necessidade de
negociação.
Incorre, assim, numa arrogância sem limites, como quando foi
cobrado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a buscar votos para aprovar a
reforma da Previdência, e respondeu que ‘a bola está com ele (Rodrigo
Maia), eu já fiz minha parte, entreguei (o projeto da reforma)’.
Das duas, uma: ou Bolsonaro acredita ser um mero despachante de projetos de
lei, e não um líder político, ou, o que é mais provável, ele crê que deputados
e senadores devem aprovar seus projetos porque, se não o fizerem, estarão
atuando contra o Brasil, que está ‘acima de tudo’, e contra Deus, que está
‘acima de todos’. E ele, afinal, está onde? Seja como for, a deliberada
desorganização política do governo, causada por um presidente cada vez mais
desinteressado de suas tarefas políticas e institucionais, tem o potencial de
agravar a crise, levando-a a patamares muito perigosos – e talvez seja isso
mesmo o que muita gente quer”.
DCM
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