Vamos
supor que você está fazendo seu trabalho, tranquila, como todos os
dias. De repente um desconhecido se aproxima e te dá um beijo. Você
nunca viu mais gordo. Mas você está exposta e tem que entregar o
trabalho naquele minuto, sendo observada por seus chefes e pela sua
equipe. Seria possível uma reação agressiva? E se aquilo se
voltasse contra você? Talvez denunciar em seguida? Mas como saber
quem era aquele homem?
Essa
situação lamentável já consta entre a nada modesta lista de
pérolas machistas que vimos e veremos nos próximos 30 dias, ao
longo da realização da Copa do Mundo aqui no Brasil (em tempo: não
que ela não aconteça da mesmíssima
forma em
outros países). Enquanto estava realizando seu trabalho, em
transmissão ao vivo, a repórter Sabina Simonato foi beijada por um
torcedor croata anônimo, na calçada da Avenida Paulista
(veja aqui o
vídeo).
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Europeu branco beija repórter ao vivo; ato é visto como pitoresco. Mais um elemento para debater relações entre opressão de gênero e classe |
A
abordagem dada pela maioria dos veículos que noticiou é a mesma de
sempre, sobretudo porque se trata de um europeu branco com alguma
grana pra frequentar copas do mundo, de não de um “pedreiro”
(pra voltarmos à velha discussão sobre intersecionalidade e
preconceito de classe que rola quando falamos sobre assédio nas
ruas): risadinhas, todo mundo achando graça. A própria repórter,
inclusive, reage com estranhamento mas tenta se manter descontraída.
Algo
me diz, porém, que ela não poderia ter tido qualquer reação ali,
ao vivo, no ar, sem que aquilo se voltasse contra ela de alguma
maneira. Talvez impondo limites ela passasse por “grossa”,
“antipática”, “péssima profissional”, entre outros
adjetivos frequentemente direcionados às mulheres que resistem o
assédio. Talvez sofresse pesada retaliação de seus colegas, da
sociedade como um todo, do veículo para o qual trabalha.
O
episódio reacende uma questão que tem estado na boca da internet
nos últimos meses, e que infelizmente não depende da Copa: até
quando seremos desrespeitadas nas ruas por sermos mulheres?
Reparem
que a questão aqui não é um beijo de um desconhecido. É um beijo
de um desconhecido num contexto específico. Claramente não
solicitado, claramente não consensual. O torcedor croata, ao tascar
o beijo na repórter, coloca-a em sua posição de mulher – um
corpo disponível. É assim que nos sentimos nas ruas, pontos de
ônibus, estações de metrô, e até mesmo em festas e bares quando
homens aleatórios se acham no direito de interferirem em nosso
espaço físico e psicológico. Sabina Simonato não pediu nem
concordou com esse beijo, não importa o quão leve tenha nos
parecido sua reação.
Quando
dizemos que o feminismo ainda é necessário, é por causa de
atitudes desse tipo. Alguém já viu algum jornalista homem sofrer
assédio sexual assim, ao vivo? Na frequência com que isso acontece
com as jornalistas mulheres (só no último ano me lembro de pelo
menos dois ou três casos de grande repercussão aqui no Brasil)? O
assédio é uma questão de poder, de lembrar às mulheres que somos
“apenas” mulheres. Por isso ele é humilhante, indigno, violento
– ainda que venha na forma de um beijo com risadinhas.
Por Marília Moschkovich, do Outras Palavras
2 comentários:
No Brasil tudo é motivo de polêmica, tudo vira problema.
20/6/14 18:54Muitas coisas não existem e são criadas pela mídia e vira questão de justiça, política, lei e o escambal.
A VIDA É SIMPLES!
Isso é uma esculhambação desse croata. Se eu tivesse perto esse caba ia tomar uns catiripapos. Onde é que fica a Croacia?
20/6/14 20:38Postar um comentário
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