A baiana Maria Bonita ainda era Maria de Déa e tinha 19 anos quando resolveu seguir com Lampião e o bando para a vida no cangaço. Ela nem podia imaginar, mas o amor que a levou a se unir ao Rei cangaceiro a transformou em símbolo de ousadia. “Maria Bonita foi a primeira mulher a virar cangaceira. Foi ousada, corajosa, rompeu preconceitos. Foi contra a sociedade vigente da época, contra a Igreja Católica. Uma adúltera, porque não havia divórcio naquele tempo”, conta a pesquisadora Semira Adler. (ver matéria sobre a união de Maria B. e Lampião).
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Mito que virou símbolo de força e bravura feminina em uma região que, até os dias de hoje, é essencialmente machista. “Uma mulher sertaneja, nordestina, fazer o que ela fez não é para todo mundo. Até hoje as mulheres sofrem preconceito, têm que se mostrar fortes. A mulher tem que mostrar que é capaz; imagine naquela época!”, observa a neta de Maria Bonita, Vera Ferreira.
O amor, a coragem, a ousadia, a determinação, o pioneirismo. Conhecer a história de Maria Bonita é ter a certeza de que ela não foi uma mera coadjuvante no universo do cangaço. Contribuiu para a história, e revolucionou costumes da época. As atitudes tomadas por essa mulher naquele Nordeste do início do século 20 representam a coragem de desafiar uma cultura da qual o povo nordestino ainda não se viu livre.
Maria Bonita e os dez irmãos foram criados numa pequena casa, no meio da caatinga baiana. O povoado de Malhada da Caiçara fica a 38 quilômetros da cidade de Paulo Afonso, no Sertão do São Francisco. Abandonada por quase trinta anos, desde a saída dos filhos e com a morte de Dona Déa, mãe de Maria Bonita, a casa da família foi reformada e transformada em um museu/memorial há cinco anos. É difícil chegar lá sem o acompanhamento de um morador ou guia, já que são muitos e muitos quilômetros em estradas de terra batida, cujos referenciais são inteligíveis para quem não é da região ou está pela primeira vez na área.
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Casa onde morou Maria Bonita |
Em seguida, uma espécie de corredor, largo e curto, que separa os dois pequenos quartos - um do casal e outros para as filhas mais novas - e a cozinha. Na cozinha, os visitantes encontram uma movelaria da época: uma espécie de balcão, também em taipa e apoiado no chão por quatro galhos de madeira, que servia como suporte para um fogareiro a lenha, e alguns reservatórios de água. A casa não dispõe de banheiro interno ou externo – as necessidades eram resolvidas no mato.
Desde a reforma, a casa abriga um memorial onde estão expostas algumas fotografias tiradas entre os anos de 1935 a 1938. São imagens de Maria Bonita, Lampião e de outros cangaceiros da época – mas nenhum dos registros foi feito na casa ou no entorno. Em geral, as imagens são réplicas do trabalho do retratista libanês Benjamim Abraão Botto, que conheceu Lampião na segunda metade da década de vinte e pode fazer algumas fotos e filmagens do bando.
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Outro ângulo da casa onde morou Maria Bonita |
A entrada custa dois reais, e os visitantes também podem ouvir histórias sobre o passado e a vida de Maria Bonita contada por primos e pela sobrinha neta da cangaceira, Adenilda Alves, que é também funcionária do lugar.
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