Dos viajantes
ilustres que visitaram a Bahia no século XIX o príncipe Maximiliano de
Habsburgo foi senão o primeiro, um dos, a nos chamar de macacos, assim no mais
com toda a espontaneidade do mundo no seu diário de viagem, anotações do
próprio punho como era do feitio dos cidadãos cultos daquele tempo; até Dom
Pedro II, com todos os seus afazeres, deixou os seus registros de viagem às
províncias do norte num diário. Era uma forma de compartilhar conhecimento, a
partir de observações críticas sobre o cotidiano e um pouco da cultura local.
Coincidiu do
príncipe chegar a Bahia às vésperas da Lavagem do Bonfim (1860) e convidado por
um cidadão austríaco muito rico, morador de Salvador, enfrentou o cortejo numa
carruagem luxuosa que no seu diário considerou exagerada, “preferia minhas
mulas” relatou. Chegando na sagrada colina impressionou-se com a multidão e com
o ânimo do povo e reparou nos negros de ganho vendendo comida. Então descreveu:
“nas cabaças já mencionadas algum velho monstro do sexo feminino, amassa a
farinha”.
Imagino que o
príncipe do alto de seu preconceito quis dizer que uma negra velha e feia
preparava a massa do acarajé, suponho. Mas é no trecho seguinte que nos enxerga
como símios: “em volta dessas cozinhas improvisadas acocoram-se, então, negros
esfarrapados, semelhantes a macacos, enfiando suas patas longas e negras no
pirão de farinha, e levando-o às goelas escancaradas, ruminando sob falatório
gutural”. Imagino que Maximiliano chamou de patas as mãos, para caracterizar a
comparação com os animais de quatro patas e quanto ao resto acho que quis dizer
que comiam com muita satisfação e conversando muito.
Mais adiante insiste na sua observação antropológica: “Quando as negras usam seus trajes típicos de cores pitorescas, vivas e berrantes, tem boa aparência. Mas ai delas quando andam com o chamado traje europeu. Ai, então, assemelham-se a macacas vestidas…A cena é por demais cômica. Os gentlemens negros de cartola e casaca tem, também, a aparência extremamente engraçada, e, no entanto, provocam tristeza”. Já indo embora, deixando a igreja, o príncipe faz sua consideração final: “sai dessa louca bacanal para o amplo terraço, de onde se descortina uma vista magnífica”.
Religioso e nem um
pouco acostumado a conviver com africanos e afro-descendentes, daí o seu relato
com exagerado empenho em nos enxergar como símios. Foi anos depois Imperador do
recém criado reino do México, de 1864 a 1867, quando fuzilado pelos
republicanos fieis ao presidente deposto Benito Juárez. A notícia causou
comoção em toda Europa e também no Brasil pois o Príncipe-Imperador era primo
de Dom Pedro II.
(Fonte: Portal iBahia / Foto: Reprodução)
(Fonte: Portal iBahia / Foto: Reprodução)
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