Se dependesse das
regiões Sul e Sudeste do país, o presidente da República para o quadriênio 2015
– 2018 seria Aécio Neves. O Brasil estaria se preparando para inaugurar mais
uma República banqueira como tantas outras que o fizeram chegar ao limiar do
século XXI como o quarto país mais desigual do mundo, perdendo só para países
africanos miseráveis.
O que livrou os
brasileiros – inclusive do Sul e do Sudeste – da escuridão política foi o povo
nordestino. O Nordeste, por ser a segunda região mais populosa do país depois
do Sudeste e por ter dado a Dilma Rousseff apoio ainda mais intenso do que o
que o senador tucano teve no Sudeste, reelegeu a presidente.
O mais
interessante nesse processo é que a região dos coronéis de outrora, que
sustentou a ditadura militar nos seus estertores – quando o resto do país já
exigia redemocratização – e que votava nos conservadores apesar de a vida de
seu povo, com a direita no poder, piorar a cada ano, aprendeu a votar em causa
própria.
A eterna
prepotência das regiões do resto país que se desenvolveram mais devido à
política e não a méritos próprios, vem gerando surtos de preconceito contra o
Nordeste nas últimas eleições presidenciais, com destaque para as de 2010 e 2014,
quando o Ministério Público teve que entrar em campo para punir surtos racistas
e xenofóbicos.
O caso de São
Paulo é pior, em termos de ignorância, preconceito e xenofobia. O povo
paulista, hoje, emula o povo nordestino, que elegia, reelegia e elegia de novo
seus algozes enquanto sua vida piorava. Os paulistas acabam de conceder o SEXTO
mandato de governador ao PSDB apesar da piora galopante das próprias vidas.
A hegemonia tucana
fez com que, de 2001 a 2011, São Paulo se tornasse o Estado que mais perdeu participação no PIB da indústria brasileira. Apesar de
ainda responder pela maior parte da produção industrial (33,3%), SP teve recuo
de 7,7 pontos percentuais em sua participação no PIB industrial, onde há os
melhores empregos.
Ironicamente,
enquanto a falta de água caminha para se tornar história no Nordeste, sobretudo
devido à incrível obra de Transposição do Rio São Francisco, que, apesar das
sabotagens, em breve estará concluída, no Sudeste, sobretudo em Minas Gerais e
SP, a população desses estados paga pela incúria dos seus governos conservadores dos últimos 12
anos.
A inversão do
desenvolvimento no país se torna gritante na comparação entre o PIB industrial
do Norte e do Sul do país. Enquanto o primeiro cresceu 1,9 ponto percentual no
período de 2001 a 2011, o Sul perdeu 2,1 pontos.
Tudo isso vem
acontecendo porque, após a chegada do PT ao poder, em 2003, o Brasil tratou de
reparar uma chaga histórica. Qual seja, o processo deliberado de incremento
econômico do Sul e do Sudeste em detrimento do Norte e do Nordeste, que foi
política de Estado ao longo de nossa história, desde o descobrimento.
O que puxava os índices
de desenvolvimento do Brasil para baixo sempre foi o Nordeste, mas só até que
Lula chegasse ao poder. Dali em diante, essa equação começou a se inverter.
Quando os
paulistas acusam os nordestinos de terem sido responsáveis pela reeleição de
Dilma por não saberem votar, mostram quanto não sabem nada sobre o próprio
país. Os nordestinos sabem muito bem por que votam no PT, como mostra a mais
nova edição da PNAD contínua, do IBGE.
A nova Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) produz informações contínuas sobre a
inserção da população no mercado de trabalho e suas características, tais como
idade, sexo e nível de instrução, permitindo, ainda, o estudo do
desenvolvimento socioeconômico do País através da produção de dados anuais
sobre trabalho infantil, outras formas de trabalho e outros temas permanentes
da pesquisa, como migração, fecundidade etc.
Pois bem: segundo
a nova PNAD contínua, divulgada na última quinta-feira, no período de 12 meses
(fechado em junho) o Nordeste liderou a criação de postos de trabalho no país.
De 1,5 milhão de empregos criados nesse período, 1 milhão foi criado no
Nordeste e o resto pelas demais regiões.
Vejamos, então,
quem é que não sabe votar: o povo de São Paulo, que vota há vinte anos em um
governo que liderou a redução da presença de seu Estado no PIB, que materializa
uma inédita escassez de água e que vê seus problemas sociais se agravarem, ou o
povo do Nordeste, que votou maciçamente em um governo que vem fazendo a vida
melhorar tanto na região?
O PIB nordestino cresce
a uma taxa quatro vezes maior que a do resto do Brasil. Isso ocorre porque,
após a chegada de Lula ao poder, o governo federal vem fazendo o que tem que
ser feito no país para acabar com um nível de desigualdade que mantém os
brasileiros no atraso.
Como é que se
distribui renda? Antes de distribuir por idade, sexo etc., a renda começa a ser
distribuída geograficamente e, passo a passo, a atuação governamental vai se
sofisticando por idade, gênero etc.
Ou seja: para
distribuir renda no Brasil, há que fazer, primeiro, as regiões mais pobres
crescerem mais do que as regiões mais ricas.
Com efeito, se o
Norte e o Nordeste fossem um país – como, inclusive, quer parte do Sul e do
Sudeste –, seriam um dos países que mais crescem no mundo, com o PIB do último
ano crescendo mais de 4%.
Infelizmente, só
há uma forma de distribuir renda: para alguém ganhar, alguém tem que perder.
Não dá para todos ganharem da mesma forma se um tem mais e outro tem menos, e o
que se quer é justamente maior igualdade. Assim, o Norte e o Nordeste precisam
crescer mais do que o Sul e o Sudeste mesmo.
Se os do “Sul-Sudeste
Maravilhas” não fossem tão egoístas e alheios à realidade, entenderiam que
não adianta querer o desenvolvimento só para essa região do país – porque
o povo das regiões empobrecidas migra para lá, aumenta a demanda por serviços
públicos e, mergulhado na pobreza e no abandono, vê seus filhos caírem na
criminalidade.
Com o maior
crescimento do Norte e do Nordeste, a migração cai ou muda de rumo, como tem
acontecido – hoje, há cada vez mais nordestinos voltando à região de origem.
Além disso, o Sul e o Sudeste poderão parar de enviar recursos, via impostos,
para combater a miséria extrema nas regiões mais pobres.
De certa forma, o
povo do Sul-Sudeste tem um “motivo” para não gostar dos quatro governos do PT a
partir de 2003. A percepção de que o desenvolvimento dessas regiões não tem
sido grande coisa, não chega a ser cem por cento errada. Porém, isso ocorre
porque está havendo redistribuição de renda entre regiões, no Brasil.
No atual ritmo de
crescimento do Norte e do Nordeste, em mais um mandato do PT o Brasil, (com Lula outra vez), terá
outra face mais justa, mais coerente com um país que não pode ser rico em uma
ponta e miserável na outra. E, ainda que grande parte do povo das regiões preteridas
não entenda, ao fim todos sairemos ganhando com isso.




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