Todas
as respostas possíveis levam ao machismo: no dito 'país do futebol', a mídia
comercial ainda acredita que lugar de mulher é fora do campo.
Noite
de terça-feira (9 junho 2015), Montreal, Canadá. Abertura da Copa do Mundo de Futebol
Feminino. A seleção brasileira estreia com vitória de 2 x 0 sobre a Coreia do
Sul. Mais do que isso, registra dois feitos históricos. No início do 2º tempo,
Marta, cinco vezes eleita a melhor jogadora do mundo, balança a rede em
cobrança de pênalti, atinge a marca 15 gols em mundiais e se torna a maior
artilheira da história campeonato. Antes disso, ainda no 1º tempo, Formiga, 37
anos, 20 de seleção brasileira, abre o placar e se transforma na jogadora mais
velha a marcar gol em mundiais.
Pouquíssimos
brasileiros, porém, comemoraram a tripla conquista da noite de estreia. Os
feitos nem chegaram a ser assunto nas rodas de conversas da semana. A maioria
das pessoas sequer ficou sabendo. As marcas das maiores jogadoras do dito
"país do futebol" obtiveram pouco espaço na imprensa comercial,
inclusive na especializada. Por que Ronaldo, o fenômeno, que também ostenta a
marca de 15 gols em mundiais, tem muito mais visibilidade? Por que o menino
Neymar, qualitativamente distante de marcas como estas, é quem frequenta as
primeiras páginas dos jornais?
Professora
do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da
Bahia (UFBA), Maíra Kubik afirma que a mídia tende a reproduzir estereótipos e,
por isso, nela, a mulher ocupa apenas seus papeis mais tradicionais, como o de
dona de casa ou de mãe. "Pesquisas demonstram que, por exemplo, em
matérias de economia, a mulher é entrevistada no supermercado para falar sobre
o aumento dos preços, enquanto os homens são os economistas, que comentam
tecnicamente", exemplifica.
No
caso específico do futebol, ela aponta que a mulher é tratada muito mais como
"musa" do que como "atleta". "No Brasil do machismo, o
lugar da mulher não é no futebol, que ainda tido como um nicho masculino. E,
por isso, mesmo conquistas valorosas como a de Marta e Formiga não ganham
visibilidade", esclarece.
A
professora destaca que estudos críticos da imagem demonstram que o machismo na
cobertura esportiva é tão grande que, mesmo quando as mulheres conseguem algum
espaço, são retratadas em ângulos que visam destacar partes especificadas dos
seus corpos, de forma a retratá-las muito mais como objeto sexual do que elas
como atletas.
Machismo
à espreita
A
militante feminista Isa Penna acrescenta que, independente do aspecto que você
analisar a cobertura da mídia esportiva brasileira, irá encontrar o machismo à
espreita. De acordo com ela, até mesmo no jornalismo esportivo o papel da
mulher é diferente. Os homens são os comentaristas. Elas, as apresentadoras.
"As mulheres funcionam quase como enfeites. Quem dá a linha editorial da
cobertura são os homens", denuncia.
Isa
observa que o machismo também está estampado nos salários pagos. Enquanto os
jogadores chegam a negociar cifras milionárias, as mulheres ganham entre R$ 320
e R$ 2 mil. Há apenas dois anos, em 2013, os salários delas, embora baixos,
variavam de R$ 800 a R$ 5 mil. "Isso mostra que, neste momento de crise
econômica, os patrocínios para o futebol feminino são os primeiros a serem
cortados", afirma.
Ela
acrescenta que, atualmente, há 800 times de futebol masculino inscritos nos
campeonatos regionais. Já os femininos são apenas 175. "Em São Paulo, os
principais clubes não tem seleções femininas. O Santos, que tinha, fechou
recentemente, com a velha desculpa de que falta patrocínio", relata.
O
jornalista esportivo José Roberto Torero avalia que o futebol feminino ainda é
muito desconsiderado não só no Brasil, mas em vários outros países com tradição
no esporte. De acordo com o jornalista, o futebol feminino só se destaca mesmo
nos países em que o masculino não é forte, como na Suécia, na Noruega e nos
Estados Unidos. "Parece que as mulheres ainda não têm licença para jogar
futebol", afirma.
Dentre
os fatores, ele também cita o machismo, que faz com que o público encare os
esportes mais brutos, de maior contato, como genuinamente masculinos. “Vôlei,
que não tem contato, mulher pode jogar. Basquete, fica o meio termo. Mas
futebol, não”, esclarece. O jornalista esportivo lembra também que as mulheres
vêm conquistando espaço em práticas como a natação e o atletismo, mas, mesmo no
país do futebol, não rompe a barreira dos espaços exclusivos dos homens.
Torero
afirma que, mesmo na cobertura do jornalismo esportivo, o papel da mulher ainda
é escasso. "Jogadoras como a Marta e a Formiga teriam muito a contribuir
como comentaristas, mas não são sequer convidadas para falarem sobre partidas
masculinas. O máximo de espaço que as mulheres ocupam é para comentar partidas
das próprias mulheres", observa ele.
Todas
as respostas possíveis levam ao machismo: no dito 'país do futebol', a mídia
comercial ainda acredita que lugar de mulher é fora do campo.
Noite
de terça-feira (9), Montreal, Canadá. Abertura da Copa do Mundo de Futebol
Feminino. A seleção brasileira estreia com vitória de 2 x 0 sobre a Coreia do
Sul. Mais do que isso, registra dois feitos históricos. No início do 2º tempo,
Marta, cinco vezes eleita a melhor jogadora do mundo, balança a rede em
cobrança de pênalti, atinge a marca 15 gols em mundiais e se torna a maior
artilheira da história campeonato. Antes disso, ainda no 1º tempo, Formiga, 37
anos, 20 de seleção brasileira, abre o placar e se transforma na jogadora mais
velha a marcar gol em mundiais.
Pouquíssimos
brasileiros, porém, comemoraram a tripla conquista da noite de estreia. Os
feitos nem chegaram a ser assunto nas rodas de conversas da semana. A maioria
das pessoas sequer ficou sabendo. As marcas das maiores jogadoras do dito
"país do futebol" obtiveram pouco espaço na imprensa comercial,
inclusive na especializada. Por que Ronaldo, o fenômeno, que também ostenta a
marca de 15 gols em mundiais, tem muito mais visibilidade? Por que o menino
Neymar, qualitativamente distante de marcas como estas, é quem frequenta as
primeiras páginas dos jornais?
Professora
do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da
Bahia (UFBA), Maíra Kubik afirma que a mídia tende a reproduzir estereótipos e,
por isso, nela, a mulher ocupa apenas seus papeis mais tradicionais, como o de
dona de casa ou de mãe. "Pesquisas demonstram que, por exemplo, em
matérias de economia, a mulher é entrevistada no supermercado para falar sobre
o aumento dos preços, enquanto os homens são os economistas, que comentam
tecnicamente", exemplifica.
No
caso específico do futebol, ela aponta que a mulher é tratada muito mais como
"musa" do que como "atleta". "No Brasil do machismo, o
lugar da mulher não é no futebol, que ainda tido como um nicho masculino. E,
por isso, mesmo conquistas valorosas como a de Marta e Formiga não ganham
visibilidade", esclarece.
A
professora destaca que estudos críticos da imagem demonstram que o machismo na
cobertura esportiva é tão grande que, mesmo quando as mulheres conseguem algum
espaço, são retratadas em ângulos que visam destacar partes especificadas dos
seus corpos, de forma a retratá-las muito mais como objeto sexual do que elas
como atletas.
Machismo
à espreita
A
militante feminista Isa Penna acrescenta que, independente do aspecto que você
analisar a cobertura da mídia esportiva brasileira, irá encontrar o machismo à
espreita. De acordo com ela, até mesmo no jornalismo esportivo o papel da
mulher é diferente. Os homens são os comentaristas. Elas, as apresentadoras.
"As mulheres funcionam quase como enfeites. Quem dá a linha editorial da
cobertura são os homens", denuncia.
Isa
observa que o machismo também está estampado nos salários pagos. Enquanto os
jogadores chegam a negociar cifras milionárias, as mulheres ganham entre R$ 320
e R$ 2 mil. Há apenas dois anos, em 2013, os salários delas, embora baixos,
variavam de R$ 800 a R$ 5 mil. "Isso mostra que, neste momento de crise
econômica, os patrocínios para o futebol feminino são os primeiros a serem
cortados", afirma.
Ela
acrescenta que, atualmente, há 800 times de futebol masculino inscritos nos
campeonatos regionais. Já os femininos são apenas 175. "Em São Paulo, os
principais clubes não tem seleções femininas. O Santos, que tinha, fechou
recentemente, com a velha desculpa de que falta patrocínio", relata.
O
jornalista esportivo José Roberto Torero avalia que o futebol feminino ainda é
muito desconsiderado não só no Brasil, mas em vários outros países com tradição
no esporte. De acordo com o jornalista, o futebol feminino só se destaca mesmo
nos países em que o masculino não é forte, como na Suécia, na Noruega e nos
Estados Unidos. "Parece que as mulheres ainda não têm licença para jogar
futebol", afirma.
Dentre
os fatores, ele também cita o machismo, que faz com que o público encare os
esportes mais brutos, de maior contato, como genuinamente masculinos. “Vôlei,
que não tem contato, mulher pode jogar. Basquete, fica o meio termo. Mas
futebol, não”, esclarece. O jornalista esportivo lembra também que as mulheres
vêm conquistando espaço em práticas como a natação e o atletismo, mas, mesmo no
país do futebol, não rompe a barreira dos espaços exclusivos dos homens.
Torero
afirma que, mesmo na cobertura do jornalismo esportivo, o papel da mulher ainda
é escasso. "Jogadoras como a Marta e a Formiga teriam muito a contribuir
como comentaristas, mas não são sequer convidadas para falarem sobre partidas
masculinas. O máximo de espaço que as mulheres ocupam é para comentar partidas
das próprias mulheres", observa ele.
Brasil de Fato



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