O relativamente
bom desempenho dos atletas brasileiros nas Olimpíadas Rio-2016 inspirou um
esforço previsível para esconder o papel do governo Dilma Rousseff na renovação
e fortalecimento do esporte de ponta brasileiro.
Num país
que aguarda pela abertura da etapa final do processo de impeachment no Senado
Federal, que terá início cinco dias depois da festa de encerramento, procura-se
apagar o tremendo esforço -- financeiro e politico -- iniciado no governo Lula
e ampliado consideravelmente nos cinco anos e meio de mandato de Dilma para
colocar o esporte brasileiro num patamar mais elevado, compatível com a
iniciativa -- ousada sob todos os aspectos -- de sediar uma inédita Olimpíada
na América do Sul.
Para
Ricardo Leyser, que foi Secretário Nacional de Esportes de Alto Rendimento no
Dilma, quando acompanhou os preparativos olímpicos de perto, chegando a
assumir o ministério nos últimos dias de governo, "fora os próprios
atletas, as medalhas conquistadas não têm dono," diz ele, em entrevista ao
247.
"Lamentavelmente, estamos assistindo até a uma tentativa de criar uma
disputa entre o ministério de Esportes e as Forças Armadas para saber quem fez
mais para o desempenho de nossos atletas. Não faz nenhum sentido. Ao longo dos
anos construimos um ambiente de colaboração e parceria, que permitiu os avanços
obtidos até aqui."
O
cidadão que levar a sério o que se pode ler nas redes sociais e mesmo em
reportagens da mídia grande, que desde o primeiro dia anunciaram a Rio-2016
como mais uma expressão do que seria a "megalomania
lulopetista," já exibida na Copa de 2014, ficará com a sensação de que as
vitórias olímpicas devem ser tributadas aos programas esportivos das Forças
Armadas e que os imensos investimentos do governo Dilma não têm nada a
ver com isso. O papel das Forças Armadas é real, cabe reconhecer, atende
a interesses das duas partes mas tem limites.
As Forças Armadas oferecem cotidianamente auxílio a 708 atletas de alto
desempenho, dos quais 187 são militares de carreira, e 541 são atletas civis
que se valem de um convênio com o Ministério dos Esportes para receber 13.
salário, soldo militar -- e de quebra reforçar o atuação do país em Olimpíadas
Militares. (No último evento da classe, na Coreia do Sul, os brasileiros
ficaram em segundo lugar, atrás apenas da Rússia).

Se os programas militares explicam por que vários atletas batem continência no
momento em que recebem medalhas, não se deve perder a dimensão das coisas.
Num país onde o apoio ao esporte sempre foi uma combinação de hipocrisia e
filantropia, os programas criados pelo Ministério de Esportes no governo
Dilma asseguram bolsas para 77% dos 465 atletas presentes a Rio-2016. Mesmo nas
Olimpíadas militares, o papel do Ministério dos Esportes não é pequeno. Das 84
medalhas, 75 foram conquistadas por estes 91 bolsistas.
Criada ainda de forma improvisada pelo primeiro ministro de Esportes, Agnelo
Queiróz, no primeiro governo Lula, o programa Bolsa Atleta se desenvolveu e se
ampliou ao longo dos anos, na medida em que a Rio-2016 se aproximava. São seis
categorias diferentes, que, numa fase inicial, podem dar direito a uma
remuneração mensal de R$ 310. Chegam a R$ R$ 1850 e R$ 3100 nos níveis médios,
e, no patamar mais elevado, chamado Pódio, atingem R$ 5 000 e até R$ 15 000
mensais. Se a maioria dos países possui caminhos diversos para patrocinar
atletas competitivos, o Brasil possui um dos maiores -- se não for o
maior -- programa oficial de patrocínio esportivo do planeta. São 6.152 atletas
em vários níveis de aprendizado e desenvolvimento, com custos anuais de R$ 60
milhões.
A prudência ensina a aguardar pelo último dia para se avaliar o saldo desse
investimento. É certo, porém, que até agora, quando as disputas finais ainda
não ocorreram, o país já acumulou um bom desempenho no total de
medalhas, com destaque para o ouro, com cinco conquistas até agora. O número é
o mesmo do que se obteve em Atenas, em 2004. A diferença é que, há doze anos, o
quinto ouro só foi obtido pela desclassificação do primeiro contemplado,
apanhado no exame anti-dopping, o que não aconteceu desta vez.
Assegurando mais duas medalhas, no vôlei masculino e no futebol, qualquer que
seja sua cor, o Brasil já pode acumular a melhor Olimpíada da história.
Para Ricardo Leyser, cabe reconhecer que "os brasileiros se mostraram
competitivos mesmo em esportes onde não conseguimos medalhas. Pelo número de
finais disputadas, a natação teve o melhor desempenho da história. O país ainda
foi bem no tênis de mesa, no polo aquático, no halterofilismo. Isso mostra que
o esporte está deixando de ser uma prática de elite, para ser praticado por um
número cada vez maior de brasileiros."
Esse comportamento explica porque, num ambiente onde as opiniões políticas são
mantidas sob reserva, dois medalhistas do judô em 2016, Rafaela Silva e Rafael
Silva, o Baby, declararam apoio a Dilma Rousseff em 2014. Mais do que uma
manifestação de alto teor ideológico que se vê entre intelectuais e artistas, o
que ouviu se ali foi um reconhecimento pelo trabalho realizado em benefício do
esporte e dos esportistas. Em cinco anos e meio de governo, Dilma
transformou a recepção a atletas que retornavam de competições no exterior num
evento comum no Planalto, contribuindo para associar sua imagem presidencial às
práticas esportivas. Num desses encontros, tirando selfies entre atletas
agradecidos, a presidente chegou a empolgar-se a ponto de dizer: "a alma
de um povo se manifesta de duas formas: pelas atividades culturais e pelo esporte,
quando tudo se converge em um só coração”.
Às vésperas da decisão final sobre seu mandato no Senado, a operação de propaganda política destinada a diminuir o papel de Dilma na Rio 2016 é risível e lamentável. Lembra as piores campanhas da antiga União Soviética que ajudaram a consolidar a ditadura de Josef Stalin, que chegavam a retocar fotografias históricas apenas para apagar personalidades indesejáveis.
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