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RAINHA DO LAR

5/11/2019




Sabe aquela frase que vira e mexe você escuta por aí: “Ser mãe é padecer no paraíso ou  ela é a rainha do lar? Pois é, possivelmente deve ter sido inventada por um ilustrativo homem pançudo, daqueles de cartola, fumando charuto, de fraque e bengala, tendo os olhos a lacrimejar cifrões  com a máquina registradora à sua frente, lançando slogans capitalistas para sensibilizá-lo a fazer novas compras enquanto o  seu cartão de crédito, se é que se tem, dá tremeliques e afunda-se em dívidas por conta, entre outras, dos gastos recentes realizados com uns tais ovos de chocolate da Páscoa que muitos andaram a comprar, no mês passado.

Longe de mim querer ser rotulado de  chato. Direi apenas que o dia das mães é  mais uma invenção da enganadora sociedade capitalista, que recorre a datas comemorativas com o intuito único e exclusivo de fortalecer seus caixas, seus comércios, suas empresas,  por meio do consumo nervoso, desenfreado,  paranoico,  graças ao  incentivo midiático que abastece a alienação cultural impositiva.

Dizem que por um lado isso é  bom, pois gera empregos temporários. Mas, de outro lado, digo eu, isso acaba pressionando as pessoas a consumir cada vez mais, inspiradas pelo apelo das bem elaboradas propagandas, do tipo: “Compre esse perfume para dar um cheiro em sua mãe que ela vai adorar”, “Sua mãe não merece ganhar esse sapato de salto alto, portanto compre batom",    "É esparrela sua mãe sem presente no dia dela”   e... por aí vai.

É por isso e em razão de tudo isto estamos no mesmo barco, exaurindo a imagem que nos venderam, a ambicionar o segundo domingo de maio, reforçando a base da pirâmide capitalista não obstante a constância da vida que não deveria ser convertida, forçosamente,  em  produtos de consumo.

À vista disso, dirijo minha solidariedade às mães e mulheres trabalhadoras de XiqueXique e de todo Brasil, cujo sentimental ainda não foi destruído pela mídia e pelos persuasivos presentes materiais.

Continuo  a acreditar no valor das pequenas coisas, pois  grande é  afirmar  que mãe é a soma de todos os afetos.



Nilson Machado de Azevedo
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UMA ESMOLINHA PRA JEJUAR NO DIA DE HOJE

4/19/2019



Ainda é costume, nos dias da Semana Santa, respeitar algumas tradições repletas de proibições para os fiéis. Entre elas: Olhar-se no espelho, usar maquiagem e qualquer perfume, por serem sinais de vaidade. Tomar banho vendo o próprio corpo nu, provoca pensamentos pecaminosos. Namorar, dançar, assobiar, comete-se pecado, por serem sinais de alegria, pois Jesus passou o período inteiro sofrendo, segundo os mais devotos.

O maior de todos os pecados, contudo, é o de manter relações sexuais, principalmente na Sexta-Feira da Paixão. O homem que assim proceder, solteiro ou mesmo casado, fica impotente para o resto da vida, e a mulher, incapacitada para gerar filhos. E, se nesse dia, uma criança for gerada, nascerá com o chamado "cão no couro", ficará aperreada, sendo infeliz até a morte.

Roga-se na Semana Santa: "Dona, me dê uma esmolinha pra jejuar o dia de hoje!"  É o humilde apelo que ainda se ouve na Quinta e na Sexta-Feira Santa da Quaresma  nestas bandas ribeirinhas do médio São Francisco e da Ipueira, sertão de tantas tradições e de religiosidade quase mística. Pessoas consideradas pobres, crianças da periferia batem nas portas das casas, com uma sacolinha na mão a pedir o jejum que lhes permitirá, provavelmente, uma refeição decente na Sexta-feira da Paixão. 

Ninguém ousa recusar a oferta nem pede para o devoto-esmoler passar outro dia. Tem que ser na Sexta-Feira da Paixão.  Afinal, "repartir" o jejum é garantir para todos os dias do ano a fartura de que faz a oferta. Então, lá se vai uma batatinha, uma laranja, uma banana, uma talhada de abóbora um pouco de farinha e de feijão... Nada de sobras. A própria compra da semana já garante uma cota para esta doação. Evidentemente que o costume, com o crescimento das cidades e a chegada de forasteiros, está diminuindo e tende a acabar, inclusive aqui em Xiquexique.

O ritual de pedir esmola pra jejuar segue na manhã da Sexta-feira Santa, quando os ricos, os abonados, permutam bandejas de iguarias típicas da Quaresma e os pobres esmolam de porta em porta.

Seguindo o ritual, muita gente diz que vai beber vinho “amargo”, sob o  corriqueiro argumento de que é dia de sofrer a paixão.

Nilson Machado de Azevedo
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FLAGELO NA SEMANA SANTA

4/15/2019




Num timbre exasperado a matraca soa demoradamente e a lamentação segue a passos lentos  pelas estações da Via Sacra a entoar benditos e padre-nossos. Os penitentes flagelam-se com as lâminas afiadas da “disciplina”, num suplício multifacetado de arrependimentos buscando redimir os próprios pecados e os alheios.

Acredita-se que as almas santas, aquelas que estão a levitar no limbo do purgatório, acompanham os fiéis penitentes durante a lamentação e que se alimentam das orações, em forma de benditos, na esperança de atenuar os seus sofrimentos, numa espécie de progressão da penitência fechada para o regime aberto,  celestial.

Os devotos são amparados e recompensados por essas alimentadas almas, habitantes efêmeros do purgatório, lugar de penumbra e de penúria,  onde as penas deixam de ser perpétuas.

Os rituais da lamentação praticados pelos penitentes de Xiquexique são dogmas que não podem ser por eles abandonados. Hão de cumprir a liturgia durante sete anos, lapso de tempo em que as almas rogam orações aos vivos, com maior intensidade.  No período mínimo de sete anos, esses fervorosos pagadores de promessas devem flagelar-se na Semana Santa.

Mas se um deles abandonar a autoflagelação,  as almas santas benditas incumbirão, por si só, de aplicar-lhe a disciplina na região lombar, pois o cumprimento do voto penitencial é compulsório a partir da quarta-feira até a sexta-feira da quaresma.

Crônica de Nilson Machado de Azevedo para o Blog A VOZ
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MORDE E ASSOPRA POR PROFISSÃO

4/02/2019



Para quem não gosta de ler os jornalões do dia-a-dia hei de dizer que, desafortunadamente,  um segmento substancial do povo brasileiro ainda é ignorante quando o assunto é a teoria da  representatividade política, seja de direita, de liberais, conservadores, totalitários ou da esquerda festeira e festiva.
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Não há quem tire, ainda, da cabeça de alguns que pertencer aos novos currais eleitorais do Século XXI e eleger pseudos-líderes é um tanto corriqueiro e banal.



Os que se dizem representantes do povo são, majoritariamente, obstinados em utilizar dos órgãos da administração pública com a finalidade de prestar serviços para alguns privilegiados em detrimento da maioria da população e tem a finalidade de amarrar politicamente o beneficiado. 

Os intermediários de favores prestados às custas dos cofres públicos, são clientelistas, despachantes de luxo ou traficantes de influências. O grande objetivo dos intermediários é o voto do beneficiado ou o dinheiro proveniente do ramerrão das propinas e dos subornos.

O clientelismo é a porta da corrupção política e o pai e a mãe das irregularidades no uso da máquina administrativa com finalidades perversas e, no final da história, os prejudicados são a maioria dos cidadãos e cidadãs que cumprem com seus deveres mais comezinhos.

Dizia-me, agora há pouco, um querido professor de ciência política que brasileiros acreditaram, ingenuamente, que Jair Messias Bolsonaro resolveria os nossos infindáveis problemas e no Messias votaram sem nenhum receio, sem conhecimento de causa e agora estão incrédulos e  abatidos com o resultado que ora se nos apresenta.
Tenho para mim que até hoje os políticos medíocres, por profissão, sempre defenderão os seus interesses particulares e, talvez, de seu grupo. Raramente servirão aos interesses coletivos e tampouco seguirão os princípios e valores éticos, por especial   deformação de formação de caráter. 

Se nós brasileiros não nos educarmos formal e politicamente e não fizermos uma reforma política para valer, vivenciaremos, de geração a geração, o morde e assopra desses arrivistas aventureiros.

nilsonazevedo@globo.com


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POPULARIZAÇÃO DA MENTIRA

4/01/2019




Hoje é 1º de Abril o  dia em que não faz mal dizer uma “mentirinha", pelo contrário até pode ser muito divertido. Mas nós por aqui e alhures gostamos de ser diferentes, recusamos completamente as mentiras e escolhemos precisamente a data em que se celebra o dia da mentira… para não mentir.

A minha querida e saudosa avó  já dizia nos saraus que participávamos: "Mentira tem pernas curtas."

Esta sentença envolvia um certo sentido filosófico. Era como se o mentiroso fosse fácil de ser apanhado e, claro, ao sê-lo se cobriria de vergonha e de desonra.

Isso se dava naqueles velhos e esplendorosos  tempos. Tempos em que os vocábulos correspondentes à honra, ética, dignidade, decoro, honestidade não eram vulgarizados em rotineiros comportamentos.

Mas os tempos aqui no Brasil mudaram muito e com eles a popularização da mentira,  mesmo com o seu lado mais brutal quando se alia à infâmia, à calúnia, à difamação e à crueldade. Veste-se até a roupagem de Fake News para eleger os tipos toscos,  bisonhos que estamos a vivenciar perplexos.
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UTINGA E FREI LUIZ

2/25/2019



O povoado de Utinga pertence ao município da Barra e fica próximo a Xique-Xique. Utinga é banhada por um canal, braço do Rio São Francisco.

Foi em Utinga que vi, pela primeira vez e única, Dom Luiz Cappio. 
Era um dia de festa da padroeira do lugar - Nossa Senhora da Imaculada Conceição - e o frei celebrava a missa solene enquanto o povo soltava foguetes e rojões. Um mastro com bandeirolas erguia-se em frente da igrejinha de estilo barroco, construída no século XIX.

Não me aproximei de Frei Luiz, mas ouvi, atentamente, de longe, o seu sermão em linguagem atingível para aquela comunidade simples de fiéis sertanejos.

 A figura emblemática daquele frade franciscano identificava-se com as minhas leituras sobre teologia da libertação e de defensor ardoroso da libertação do Velho Chico.

Sei que do alto da serra de Santo Inácio, onde viveu por algum tempo, Frei Luiz teve a mesma visão de São Francisco que do alto da cidade italiana de Assis contemplou a beleza da planície ao seu redor e amou a natureza sem artifícios.

Ao deixar saudoso o povoado de Utinga naquele dia de festa, tive o pressentimento de que jamais voltaria ali pelo rio, pois as dificuldades para alcançarmos a ipueira de Xique-Xique, navegando pelo canal, somadas aos bancos de areia, quase impediram o nosso barco de chegar ao porto da Ponta das Pedras.

Mesmo assim, a fé ainda me removerá até Utinga, em peregrinação, para rezar pelo Velho Chico na Capela da Imaculada Conceição.

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O CAIS DA IPUEIRA

2/23/2019





As feridas urbanas estão expostas a traumatizar a estética desta cidade que um dia, perdido no tempo, foi esconjurada pelo Padre Francisco Sampaio, quando foi ele escorraçado de Xique-Xique,  embarcado  numa canoa furada pelo fato de  haver enfrentado de peito aberto alguns "coronéis" xiquexiquenses do século passado. 

Em Xique-Xique há, sim,   feridas  com ardentes sintomas na orla fluvial. O monstrengo de concreto que se ergue desafiador, sem enfrentar a clava forte, sufoca com os fluidos de ácido úrico e coliformes exteriorizados pelo metabolismo humano, despejados nas quinas sombrias do famigerado “cais”, num premente estado de necessidade sem corar as impudicas faces dos agachados.

A ocupação comercial dos buracos que se abrem sob o muro, foi planejada e permitida por algum artista, surreal, “urbanista”, cuja obra impunemente erguida é de causar repulsas e náuseas, pelo mau gosto estético e odor, para aflição dos escultores, daqui e de alhures.

Se porventura em algum dia  perdido no tempo, for  apagada  de Xique-Xique a idade das trevas que insistentemente turva o céu da Ipueira, talvez haja   o renascimento do cais.

Com a fé que não me costuma falhar,  imagino que nesse  dia de hosanas e louvores, o poluto monstrengo, objeto de olhares assimétricos dos viajantes que casualmente nos visitam, seja  expurgado das margens da Ipueira ao som do Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart e com  louvores a São Francisco de Assis.

Nilson Machado de Azevedo

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VIXE MAINHA

1/10/2019



Pescava eu lá para as bandas do Mangue Fundo, ao Norte da Ipueira, e vez por outra enxergava, não muito longe, uma mulher muito bonita que me encantava. Os seus cabelos longos e negros reluziam como o brilho do sol.

A atraente e graciosa criatura emergia do fundo das águas e nadava até à margem do rio, exatamente no local onde eu costumava encostar a minha canoa.

Assenhoreava-me do especial dom de poder observá-la com admiração, sem me enfeitiçar. Não era pra qualquer ser humano ver a Mãe D’Água, sem se enfeitiçar. Mas, incólume, podia vê-la seminua na beira do rio. Ela sentava sobre as pedras e ficava a pentear os seus longos e negros cabelos com seu pente de ouro.

Já sabia que a sua beleza contagiante fazia com que muitos pescadores se apaixonassem e lhe ofertassem perfumes, sabonetes, águas de cheiro e enfeites para os seus cabelos.

Os pescadores costumavam deixar esses agrados em cima das pedras nas quais a Mãe D'Água aparecia e sem que percebessem, ela apanhava os presentes e por gratidão ajudava os seus devotos a pegar muitos peixes. Eu mesmo já fui favorecido pela Mãe D’Água.

Desconfio que a energia e as forças do mundo invisível somadas ao credo pela deusa das águas, proporcionaram-me, durante algum tempo, muitas fortunas e regozijos advindos da beira do Velho Chico.

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FUTURA CAPITAL DO ESTADO DO SÃO FRANCISCO

12/27/2018

Alguns Jornais do Pará, de Roraima e do Tocantins e, especialmente, o Jornal A VOZ , noticiaram, já faz muito tempo, a possível criação de novos Estados. Não há surpresa quanto a isso. Relembro, no entanto, que o Brasil já é muito dividido em razão das suas diferenças sociais.
  
Este país riquíssimo, tingido de verde-amarelo e rubro escarlate, mas povoado por parcela pobríssima, apesar dos esforços discursivos de indivíduos que enaltecem a classe C, antiga compradora de carro popular, antiga usuária contumaz dos antigos carnês de históricas 72 parcelas mensais.

No Brasil republicano, paradoxalmente, existem condados, feudos e coronelatos matizados de púrpura, alcatifados de reais e chibatas.

Mas o que me causou atenção, espécie ou estranheza é que um dos projetos da divisão territorial do Brasil inclui, mais uma vez, a Bahia.

Isso mesmo: a Bahia com agá.

Com a criação do pretendido Estado do São Francisco, uma coisa seria certa e reiterada: Nós que nascemos aqui nestas barrancas do Velho Chico, deixaremos de ser os velhos baianos e seremos os novos franciscanos.
  
Nessa condição, mostraremos ao Mundo, do Ocidente ao Oriente, que o Estado do São Francisco há de ser habitado por destemidos cabras machos, sertanejos, descendentes dos ex-pescadores de Surubim, Mandi e Curimatá, tradicionais usuários da quase extinta Lagoa de Itaparica e da Ipueira.
       
Nós xiquexiquenses que estamos espalhados pelo planeta Terra, decerto ocuparemos Brasília, São Bernardo do Campo, Curitiba, Juiz de Fora e Washington D.C. para exigir o nosso direito natural, geográfico e estratégico.

E vamos levantar essa bandeira, espalhando ideologia:
“Xique-Xique para Capital do Estado do São Francisco.”

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BUNDÕES, MARRÕES E ELEIÇÕES

12/17/2018

Nos primórdios do Século XX, as lutas políticas dividiram Xique-Xique em dois grupos opostos liderados pelos “Bundões” e “Marrões”, os quais  resolviam suas pendências ou diferenças  por meio de lutas armadas. 

As eleições eram meramente simbólicas e  à medida que o partido derrotado não aceitava perder, recorria, não raro, às armas para tentar anular as eleições à base do tiro,  ou seja, o grupo que estivesse mais equipado de armas, quando perdia nas urnas,  anulava a eleição e tomava o poder na marra.

O partido político apelidado de “Bundões” foi imortalizado no ABC do São Francisco:  "Xique-Xique   dos Bundões" e a cidade era conhecida, por este sertão afora e  até na capital do estado, como "Terra do Barulho".

Em Xique-Xique desenvolviam-se as eleições com o uso exagerado de clientelismo, do populismo e da compadrice, havendo ligação direta dos candidatos com o seu eleitorado, exigindo-se, ao menos na época das eleições, uma visita pessoal  ao eleitor que ficava satisfeitíssimo com a visita, ao ponto de um declarar: "Aqui todos votam com X. Porque ele é um homem sem bondade! Chega aqui em casa, abraça todo mundo, toma um café, paga umas bebidas e vai logo dizendo: “Eu não vim aqui  pedir voto, porque eu sei que vocês votam comigo!”

Havia, no entanto, desencantamento da parte de alguns eleitores  que não enxergavam motivo ou propósito de dar o seu voto: “Eu não voto. Aqui em casa eles não dão nada pra se votar. Nem óculos. Nem sapato. Nem tijolo. Nem camisa. Por isso não voto”. Iam para a Caatinga e  não votavam!
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A CHEIA

12/07/2018


Xique-Xique submergiu, literalmente, nos anos de 1979 e 1980, com reflexos negativos para a economia local perdurando pelos anos subsequentes.
 
Houve erro de cálculo e de planejamento dos agentes milagreiros, prepostos do governo militar.

É forçoso lembrar que as turbinas da Hidrelétrica de Sobradinho proporcionaram a claridade elétrica nas ruas, praças, avenidas, becos, adjacências e quebradas da nossa urbe barranqueira, desdenhando do velho motor, movido a óleo diesel, da precária usina localizada na rua Grande.

A antiga "usina da luz" ditava as regras, exteriorizadas em três sinais, para os jovens que se divertiam à noite "rodando" no jardim da Praça Dom Máximo. O três sinais vindos da usina era o recado do apagão rotineiro das 23 horas. A partir desse horário Xique-Xique ficava na escuridão soturna. Surgia, então, o clarão poético do brilho fulgente da lua.

Os notívagos, os boêmios contumazes, regozijavam-se nas noites de plenilúnio quando o luar refletia nas águas mansas da ipueira, a inspirar as serenatas de violão e de radiola dos amantes à moda antiga.

A rua do Perau então notabilizava-se. O restaurante de Neném Facilita era de utilidade pública nas noites estreladas dos poetas e seresteiros. Noites estreladas a lembrarem uma tela de Van Gogh.

Concorria, única e exclusivamente com Neném, naquelas madrugadas de quietude, o restaurante de Luizinho, onde se contava a história dos abusos sádicos perpetrados contra a pobre rapariga Maria Bandinha, trucidada covardemente, sem remorsos.

Mas a dinâmica do tempo real deletou toda esta história, de mais baixos do que de altos, e Xique-Xique se transformou, metamorfoseando-se tal qual uma crisálida na flor do mandacaru.
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LENDAS DO VELHO CHICO

12/05/2018

 

O NÊGO D’ÁGUA

Estava eu  indo para o Icatu e quando passava pelo Canal do Guaxinim  o "nêgo d'água"  emergiu das águas e apareceu  ao lado do meu barco, querendo cachaça e fumo. Por sorte levava comigo os objetos do desejo do compadre.

Para quem não sabe o nêgo d´água vive  no meio do rio, nos locais onde existem rochedos e perto das c'roas. O tal sujeito gosta de fazer locas cavando os barrancos, provocando o deslizamento das terras. Para afugentá-lo ou amedrontá-lo, nós beiradeiros  colocamos armadilhas de pregos e vidros nos lameiros. 


Apesar de viver também fora d'água ele nunca se afasta muito da beira do rio durante as suas andanças e estripulias. Quando implica com um pescador, por vingança afugenta os peixes, tange-os para longe da rede de pesca.  Adora fumo e faz chacotas e zombarias com quem com ele se depara. Conhecedores do vício, os pescadores atiram fumo na água para angariar a sua simpatia.


Em noite de farinhada, o tal elemento costuma habitualmente aparecer nas casas de farinha das ilhas, depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. É quando ele passeia entre os que estão adormecidos para roubar-lhes fumo,  beiju e cachaça.

Um pescador contou-me que pescava à noite, de lua cheia,  quando percebeu um vulto  boiando na correnteza. Remou apressadamente em sua direção e ao se aproximar, viu que se tratava de um cavalo morto. Tentou encostar a embarcação para verificar a marca ou ferro e assim  avisar ao dono, quando o animal afundou e, logo em seguida, a canoa foi sacudida. Era o nêgo d'água agarrado à borda da embarcação tentando virá-la.

Nesse instante o pescador lembrou que trazia consigo um pedaço de fumo. Imediatamente o atirou para o elemento que, dando cambalhotas e esbravejando, desapareceu no fundo do rio.

Alguns dizem que existe apenas um nêgo d'água em todo o rio São Francisco, outros dizem que são muitos. O fato é que o bicho povoa na imaginação de muitos meninos beiradeiros e à noite raros são os meninos que se aproximam do rio.

Quanto ao nêgo d'água que me apareceu no canal do Guaxinim, confesso que nunca mais o ví, nem quero mais ver essa “livusia” mal assombrada.


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A PRAGA DO PADRE CHICÃO

10/30/2018


Juram os céticos que a praga lançada e aspergida sobre Xiquexique pelo padre Francisco Sampaio, no limiar do século XX, jamais será remida ou exorcizada. 


A praga que  até hoje ecoa, misteriosamente, desde a Ilha do Miradouro até o acesso da Vila de Santo Inácio no Portal da Serra do Assuruá, irradiando a maldição já conhecidíssima, ad nauseam, por gerações e gerações de  xiquexiquenses: “Terra maldita que crescerá tal qual rabo de cavalo. Dizem que nem reza de São Cipriano da Capa Preta neutralizará os efeitos do epíteto deflagrado pelo vigário indignamente ultrajado.

Não participo do rol dos pessimistas. Creio que o perdão emergirá das mesmas águas são-franciscanas aonde os antigos coronéis e seus sequazes fizeram embarcar, compulsoriamente, na marra mesmo, o padre Chicão a bordo da lendária canoa furada.

Interessa-me saber, no entanto, quem enterrou uma caveira de burro na Praça Dom Máximo, no meio do jardim,  a fim de  aplicar, sumariamente,  ao malévolo autor ou autores a pena de excomunhão, prevista no Código Canônico quando buscaremos convencer às nossas lideranças políticas o enfrentamento e as soluções, com os espíritos desarmados, uma vez que se multiplicam os enormes desafios que se lhes apresentaram  nestes tempos pós-modernos do ano de 2018.


A nossa urbe barranqueira está, ano após ano, a clamar um compromisso de todos os seus cidadãos que depositaram seus votos, repletos de esperanças alvissareiras, nos dirigentes do município, objetivando retirar das pranchetas burocráticas o desenho do desenvolvimento de que a séculos necessitamos, até mesmo no que se refere à agressiva paisagem que contorna a Ipueira, legado da enchente de 1979-1980 e da  ditadura militar, que até hoje  obstaculiza a visão romântica do ocaso do sol em pinceladas de rosicler desde a beira da Ipueira.


Se preciso for, prometo que estarei no final da  avenida J. J. Seabra, bem em frente ao Colégio Senhor do Bonfim,  dirigindo uma retroescavadeira até à Praça Dom Máximo para desenterrar a famigerada caveira de burro que está enterrada no anfiteatro que se distingue  na paisagem da bucólica Praça. 


Na alvorada desse dia, quando o sol der início ao seu brilho ardente na orla do Parque Aquático Ponta das Pedras, vamos todos  à Igreja Matriz do Senhor do Bonfim, em procissão, cantando salmos e benditos, para fazer penitência e orar pela alma do Padre Francisco Sampaio e com a sua intercessão, rogaremos ao Padroeiro que uma brisa de perdão e  civilização  volte a dar um  sopro de alento e paire  sobre a cidade.


Nilson Machado de Azevedo
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A SERPENTE DO MIRADOURO

10/13/2018




Para mim, que nas suas margens vivi, não há dúvidas de que o rio São Francisco é um celeiro de lendas. É santo que foge de igreja, é caboclo d´água que vira cabaça para atrair e comer as pessoas, é serpente encantada, mãe d´água, entre tantos outros mistérios que habitam as profundezas do “Velho Chico” e aguçam a imaginação dos barranqueiros.   

Em Xiquexique, na ilha do Miradouro de 12 km de extensão por 6 km de largura, ninguém sabe ao certo onde foi parar a serpente que vivia debaixo do altar-mor da Igreja de Santana.

A construção dessa igrejinha é do início do século XVIII e se deve a um caboclo rico chamado Robério Dias Muribeca, neto de Caramuru e da índia Paraguaçu. Diz uma das versões da lenda que a mãe de Robério virou uma serpente encantada e ele construiu uma igreja na Ilha do Miradouro para acorrentá-la debaixo do altar. Conta-se que de sete em sete anos acontece um estrondo na igreja, deixando-a toda rachada. Os devotos rezam o "Ofício" senão a serpente aparece e sai comendo tudo.

O forro do altar, com a pintura da santa, estava quase desabando quando lá estive,  devido à ação dos cupins e da infiltração. A imagem original de Santana, com uma coroa de ouro, foi roubada há mais de 30 anos. Em outra invasão de vândalos, o piso da sacristia foi arrancado e cavaram um buraco em busca de um possível tesouro que muita gente acredita estar enterrado por ali.

A pequena imagem de Santana em madeira, possivelmente é tão antiga quanto à igreja que conserva o púlpito com bacia de pedra e guarda-copo de madeira, almofadado. As grades da comunhão, em treliça, estavam amontoadas há vários anos na sacristia.

Sobre a origem do nome da ilha, alguns de seus moradores disseram que partiu de “mira ouro”. Do local onde existe a igreja, segundo eles, os nativos tinham o poder de avistar ouro na Serra do Assuruá que enriqueceu muita gente que se aventurava a garimpar pela serra.
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CHOVA OU FAÇA SOL, TODO DIA É DA MULHER

9/05/2018



Já houve uma época, em um passado não muito distante,  que a mulher foi considerada, pelo patriarcado,   figura submissa e inferiorizada por sua fragilidade e condição fisiológica. Porém, usando da inteligência que lhe é inerente, a mulher primando  por liberdade, foi à luta cotidiana, aos estudos formais, foi buscar e galgar melhores condições de vida e o exercício do seu direito à igualdade,   passando a conduzir suas ações, tornando-se bem resolvida, ocupando cargos e funções  relevantes em todos os  setores da sociedade, sem deixar de lado a feminilidade, espontaneidade e criatividade.

O caminho percorrido pela mulher em busca de oportunidade, reconhecimento e igualdade, foi árduo, lento, mas  promissor, ao final. A mulher deixou de ser uma personagem passiva na sociedade familiar e social para ser um agente ativo, defensora de ações e argumentos em defesa da sua independência, igualdade  e cidadania.

De sua vida tribal, sedentária em tempos imemoriais, passa pela Revolução Industrial, Revolução Comunista na Europa, a movimentos feministas nos EUA até desembocar nas terras brasileiras, a mulher muito lutou, mas também muito conquistou na seara pessoal civil, constitucional, social, política  e econômica.

Essa trajetória vitoriosa da mulher contemporânea, se deve principalmente à sua capacidade da valorização do estudo,  de forma a agregar valores pessoais, compartilhando suas experiências, habilidades e, notadamente, por ser ela detentora de um caráter que lhe é inerente:  a sensibilidade.
Assim sendo, todo dia, quer chova ou faça sol,  é DIA DA MULHER, seja em Nova Iorque, em Londres, em Xique-Xique, Salvador ou em Paris ou aqui na minha casa.
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O CAUSO DE ROMÃOZINHO

7/25/2018





Tua terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
Na minha, mandacaru
umbuzeiro e pé de juá.


Xique-Xique. Manhã de sexta-feira. Mestre Chiquinho, numa só manobra, encostou a barca "Sereia da Ipueira" no barranco do porto do Mocambo dos Ventos.

Havíamos deixado, antes do nascer do sol, a Ilha do Miradouro e o estreito do canal do Guaxinim. Já estávamos bem distantes do porto da Ponta das Pedras, ponto de partida e de recolhimento da âncora da nossa embarcação.

Ali no alto do barranco debaixo de uma mangueira que resistia tenazmente a força dos ventos e da areia que formavam as dunas, iniciávamos o ritual próprio de pescadores, que consistia no ensaio do preparo da sapeca de peixe, ao acender o fogo, para formar a brasa, sob uma improvisada forquilha para assar os mandins, curimatás, pirás e piranhas bebas, pescados com rede e tarrafa.

Acercaram-nos alguns nativos, moradores do Mocambo. Traziam um garrafão de aguardente, uma manta de carne de bode salgada e farinha de mandioca preparados ali mesmo ao sabor e ao sopro dos ventos.

Mestre Chiquinho não recusou a aguardente brejeira. De minha vez, para não fazer desfeita ao povo do Mocambo, aceitei, também, de bom grado, uma talagada da catuzeira, relíquia artesanal que ainda cheirava à cana caiana dos brejos do Icatu.
Os nossos anfitriões, orgulhavam-se em relembrar que a localidade do Mocambo dos Ventos era quilombola e até hoje habitada por descendentes de escravos.

Apesar dos meus esforços em demonstrar naturalidade nativa, não houve jeito. Confundiram-me com algum turista, pois a máquina fotográfica, a minha bermuda estampada, o boné e os óculos escuros denunciaram-me escancaradamente. Logo eu que tenho fama de ser marxista, desde que Marx dizia ser Marx mesmo pintado de verde-amarelo.

Nos intervalos de cada prosa, debaixo de frondosa mangueira, de cada dose de aguardente e dos sucessivos mergulhos no rio que marulhava ali em frente, contavam-me causos fantásticos envolvendo pescarias, assombrações, mistérios, lutas, mitos e lendas do Velho Chico, representando uma identidade particular, única, dos descendentes de antigos escravos.
Um dos causos a mim narrados pelos mucambenses dizia respeito a lenda de Romãozinho.

Reproduzo, resumidamente:
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PARTE 2


Romãozinho era um menino endiabrado, filho de um casal de lavradores. O pai trabalhava de sol-a-sol na roça e romãozinho era encarregado de levar-lhe diariamente a refeição. A mãe sofria muito com as traquinagens do filho e a brutalidade do marido que a espancava por qualquer "dá cá aquela palha". Romãozinho gostava de ver sua mãe apanhar e, por isso, provocava brigas entre os seus pais.

Todos os dias que ia levar a comida para seu pai na roça, o capeta do menino comia a metade pelo caminho, razão pela qual o pai tinha sempre um motivo para espancar a mulher quando chegava em casa á noite, alegando que ela era uma pessoa mesquinha e que queria matá-lo de fome. A mulher retrucava que mandava comida suficiente e isso aumentava a raiva do marido.

Certa vez, a pobre mãe matou uma galinha e preparou a capricho, mandando-a inteirinha para o marido. Romãozinho comeu tudo no caminho e chegando ao local do trabalho, onde o pai, faminto, o esperava, apresentou-lhe apenas os ossos da galinha, disse: ela manda dizer que se contente com os ossos, pois a carne guardou para o vigário.

Mal acabou de ouvir o que o filho lhe dizia, o homem saiu como louco e, chegando em casa, matou a mulher. No momento exato em que o marido matava a esposa, o mau filho estourou, deixando atrás de si um horrível cheiro de enxofre.

Desse dia em diante Romãozinho começou a aparecer para as pessoas, fazendo boiadas arrebentarem os currais, virando panelas no fogo, furando vasilhames de água e jogando pedras nos telhados das casas. Ele virou bicho aos doze anos de idade e quando toma birra com uma pessoa ela tem que se mudar de terra.

EPÍLOGO


Naquela altura, depois de ouvir a história de Romãozinho, urgia molhar a garganta e beliscar um churrasquinho de carne de bode, ali na beira do rio. Para minha surpresa e dos demais, a cachaça e os tira-gostos desapareceram num passe de mágica, num encanto.

Ainda ouvimos uma gargalhada estridente, que ecoava na curva do rio, enquanto regressávamos ao porto das Pontas das Pedras.

Ao anoitecer chegamos a Xique-Xique em tempo ainda de vermos o deslumbrante pôr do sol que se descortinava no horizonte da ipueira.

Na Avenida J.J. Seabra, já refeito do susto, fui induzido a fechar o corpo, com um brinde de januária no boteco de Manezim, rezando alguns benditos e, em especial, o Salmo Noventa e Um.

Nilson Machado de Azevedo
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GAROA DA TEMPESTADE

6/13/2018




Nada nos diverte  quando estamos na capital paulista, para onde, aliás, somente viajamos a  trabalho.  Foi nessa condição que estávamos participando de uma reunião de trabalho  em um  escritório nas imediações da Avenida Paulista quando policiais  atiravam  e explodiam caixas e mais caixas, tubos e mais tubos  de  gás lacrimogênio contra a plebe socialista  que se manifestava bradando, entre outras palavras de ordem,  o lema que ainda não saiu  da moda:  “Banimento  já” ... para Michel Temer.

Por mero instinto de preservação  pouco nos aventuramos a comentar  sobre  política partidária na capital bandeirante,  apesar de  dar coceira na garganta pelo  que se diz e rotineiramente  ouvimos nos bares,  restaurantes,  nas feiras livres, na popular  Rua  25 de março  ou nos oligopólios implantados ao longo da   Rua Oscar Freire.

Os que habitam os Jardins, a  Vila Nova Conceição ou até mesmo o Campo Limpo,  demonstram, sem nenhum pejo, ser inimigos figadais  dos partidos de esquerda. Há um fanatismo exibicionista no ar poluído da antiga “Terra da Garoa”.

Há uma fúria impregnada  contra os movimentos sociais na metrópole do Sudeste! É uma espécie de paranoia coletiva assemelhada aos  megas engarrafamentos nas estradas que levam ao  litoral paulista  em véspera de feriado.
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Beiju é beiju e tapioca é tapioca

5/20/2018

BEIJU é uma iguaria diferente da TAPIOCA!


Dói-me no fundo d’alma quando ouço meus conterrâneos apelidarem, sem respaldo histórico, o nosso beiju ao chama-lo de  tapioca, omitindo  o seu verdadeiro nome de batismo indígena, qual seja: Beiju. 

Ora pois meus senhores e  minhas senhoras: O beiju e a tapioca são iguarias distintas, embora ambas são feitas  da mandioca, tubérculo também conhecido como aipim e macaxeira.

Pesquisem se possível no Google e vão aprender que o beiju é feito e preparado a partir da massa da mandioca, ralada e peneirada.

Vão ter conhecimento googliano de que a tapioca é feita a partir do amido ou goma, conseguido da prensa da massa e da decantação do líquido resultante, a manipuera. A goma, após lavada, secada e peneirada, é levada a uma frigideira ou chapa quente para ser assada surgindo o beiju oriundo e transformado, por via de consequência, da tapioca.

Portanto, como se vê, beijú é BEIJU, tapioca é tapioca,  licuri é côco (de Ouricuri)  e acarajé  não é bolinho, é acarajé mesmo. Pensem bem:  No caso de  continuarem  a chamar  o beiju simplesmente de tapioca, vocês poderão ser condenados ad aeternum rei memoriam, em segunda instância, a comer Xis Burger vitaliciamente.


Nilson Machado de Azevedo
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SEM TIRAR ONDA DE HERÓI

5/17/2018



O músico - cantor – poeta - baiano Raul Seixas, disse, bem  sóbrio, que não queria ser prefeito, pois correria o risco de ser assassinado, caso fosse eleito.

Se Raul tivesse a mesma inspiração nestes últimos anos, admitiria que o risco se somaria à possibilidade de ser cassado post mortem.

Um ex-prefeito confessou-me que por mais haver se empenhado em ser honesto, por mais que administrasse o município na ponta do lápis, as suas contas sempre corriam o risco de não serem aprovadas pelo Tribunal de Contas, pela simples razão de haver rompido com um grupo político poderoso da sua região, com velada influência tanto no TC quanto no Tribunal de Justiça do seu Estado.

Dizia-me que sem as contas da prefeitura aprovadas, foi ele, por traição, acusado pelo que não fez e pelo que nem soube fazer. Sem o apoio da maioria dos vereadores ficou a um passo do processo de impeachment e a uma polegada da cassação pelo TRE, em que pese haver pagado promessa ao santo padroeiro municipal para não cair nas mãos de algum juiz parcial, desses raros que proferem decisões em face dos murmúrios de espíritos santos de orelhas nos telefones fixos ou móveis que caem sempre nas escancaradas escutas grampeadas, sem exclusão da lista negra do Conselho Nacional de Justiça-CNJ, ou da operação lava jato.

É ululantemente óbvio, público e notório que muito tem sido feito para diminuir a corrupção sintetizada nas fraudes e ilícitos que grassam na administração pública brasileira. Sabemos que a maioria das instituições do judiciário combate com firmeza a prática desses delitos, embora, diga-se de passagem, uma minoria forte e exuberante de forças não muito ocultas, corrói a ética e a moralidade tão perseguidas pelos políticos sérios.

Nesta mesma linha de raciocínio, sem acreditar em mágica, os juízes anônimos espalhados por todo o Brasil que exercem os seus misteres com honestidade, dignidade e honradez, são decisivos no combate à corrupção. Devemos a esses obstinados magistrados a sobrevivência do estado de direito no Brasil. O resto é futrica provinciana e paroquial.

Quanto ao ex-prefeito que aqui mencionei, digo-lhes que ele não mais se candidatou a cargos eletivos, nem mesmo a síndico do condomínio onde reside, pois, continua a afirmar, sempre inspirado em Raul Seixas, que "não é mais besta para tirar onda de herói".


Nilson Machado de Azevedo
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UM DIA DE MÃE

5/13/2018



Sabe aquela frase que vira e mexe você escuta por aí: “Ser mãe é padecer no paraíso ou ela é a rainha do lar? Pois é, possivelmente deve ter sido inventada por um ilustrativo homem pançudo, daqueles de cartola, fumando charuto, de fraque e bengala, tendo os olhos a lacrimejar cifrões  com a máquina registradora à sua frente, lançando slogans capitalistas para sensibilizá-lo a fazer novas compras enquanto o  seu cartão de crédito, se é que se tem, dá tremeliques e afunda-se em dívidas por conta, entre outras, dos gastos recentes realizados com os tais ovos de chocolate da Páscoa que muitos andaram a comprar, no mês passado.

Longe de mim querer ser rotulado de  chato. Direi apenas que o dia das mães, na forma como se festeja, é  mais uma invenção da enganadora sociedade capitalista, que recorre a datas comemorativas com o intuito único e exclusivo de fortalecer seus caixas, seus comércios, suas empresas,  por meio do consumo nervoso, desenfreado,  paranoico,  graças ao  incentivo midiático que abastece a alienação cultural impositiva.

Dizem que por um lado isso é  bom, pois gera empregos temporários. Mas, de outro lado, digo eu, isso acaba pressionando as pessoas a consumir cada vez mais, inspiradas pelo apelo das bem elaboradas propagandas, do tipo: “Compre esse perfume para dar um cheiro em sua mãe que ela vai adorar”, “Sua mãe não merece ganhar esse sapato de salto alto, portanto compre batom",    "É esparrela sua mãe sem presente no dia dela”   e... por aí vai.

É por isso e em razão de tudo isto estamos no mesmo barco, exaurindo a imagem que nos venderam, a ambicionar o segundo domingo de maio, reforçando a base da pirâmide capitalista não obstante a constância da vida que não deveria ser convertida, forçosamente,  em  produtos de consumo.

À vista disso, dirijo minha solidariedade às mães e mulheres trabalhadoras de todo Brasil, cujo sentimental ainda não foi destruído pela mídia e pelos persuasivos presentes materiais. 

Continuo  a acreditar no valor das pequenas coisas, pois  grande é afirmar  que mãe é a soma de todos os afetos.

Nilson Machado de Azevedo
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